Eu penso demais, eu analiso demais. Eu detalho conversas, gestos, silêncios, possibilidades... E eu vejo detalhes que quase ninguém repara. Porque, no fundo, eu acredito que as pessoas sempre mostram quem elas realmente são.
E toda vez que eu tive oportunidade, eu quis te dizer que sempre lembro do dia em que a gente se conheceu. Não teve nada de especial. Eu só lembro.
Eu estava indo bem. Mas eu esqueci a cor da sua camisa. Qual era mesmo? Um cinza, meio chumbo, meio céu escurecido antes de chover? Não lembro.
Eu esqueci como eram as suas pausas antes de falar as frases de impacto. E isso me intrigava.
Eu esqueci do som da respiração mais profunda quando a conversa ficava um pouco mais densa. E isso me interessava.
Eu estava indo bem. Mas não lembro mais da risada de canto de boca, meio escondida, que aparecia só quando você se sentia confortável.
Eu não lembro mais da sua mania de esfregar o rosto com as duas mãos quando ficava nervoso. Isso me dizia muito.
É o que ninguém repara. Eu vejo.
No começo, eu esperei algum movimento. Eu fazia comparações, e nunca ninguém ganhava. Na verdade, ninguém precisava ganhar.
Mas quando vem a dúvida, a primeira coisa que me falta é palavra. Eu acho que foi aí que passou.
E só me sobrou aquela sensação de “quase fomos” que eu ainda quero te contar.