30 de junho de 2016

Memória curta

Eu nunca fui de metáforas e analogias. É, é. Não é, não é. Simples. Direto. Não sou de iniciativas. De dar o primeiro beijo. De falar o que penso sem nem filtrar. Eu filtro. E muito. Então, a recíproca tem que ser na mesma proporção. Não me mostra o que você viu. Me mostra o que você sentiu. É tão mais legal. Tão mais cheio de paixão.

Eu acredito na simplicidade do entusiasmo de um olhar que preenche mais que declaração escancarada de amor. Acredito em olhos que sorriem. Nos sorrisos que se declaram. Nos olhos que sabem conversar. No coração batendo acelerado. E não dá para interromper essa dinâmica.

Mas, eu me transformei naquela pessoa adulta que quando me via, dizia – como ela cresceu, como o tempo passa. Eu estou achando tudo grande. Tudo breve. Sinto pelo tempo passar tão rápido. Sinto por eu andar tão rápido por aqui. Quase não ver. E quase não dar tempo de falar o que senti.

Preciso juntar mais gente. Rodeada de barulhos bons. Abrir mais vinhos (abrir o que eu nunca abri). Eu vou atrás de mais. Dias mais longos. Andar por aí sem lembrar que o tempo vai passar – e que um dia vou me olhar e dizer – mas como você cresceu, como o tempo passou.

Vou atrás de mais. E, assim, ficar inteiramente ocupada sendo surpreendida pelo momento. Mas é cada memória curta e ansiedade longa que a gente tem. E não dá para interromper a dinâmica.

13 de abril de 2016

Sobre o óbvio

"Even if your hands are shaking. And your faith is broken. Even as the eyes are closin'. Do it with a heart wide open"

Eu era nova e acreditava na ideia de que a vida estava nas minhas mãos, que eu podia controlar tudo, e tinha certeza de que o rosto da felicidade era liso, luminoso e sedoso. A cara que eu queria ter, livre de cicatrizes ou marcas. Claro que a ilusão não durou muito. Uma hora a vida vem.

Uma boa hora para perceber isso é arrumando as malas. Fui mexer na minha bolsa para pegar meus documentos. Acabei encontrando, no fundo da bolsa, toda amassada e quase apagada, a 2ª via do cartão do nosso último jantar (perdido há quantos meses?). 

Abri a bolsa para procurar o celular, achei um cupom fiscal de umas roupas que comprei faz uns meses em uma promoção e até esqueci que elas estavam no guarda-roupa. Não sei mais se a calça serve, porque eu jurei que ia emagrecer e o projeto não foi para frente. Não vou arriscar experimentar.

Me deu dor de cabeça. Fui mexer na minha bolsa para procurar um comprimido. Hipocondríaca que sou, achei uma cartela de remédio quase vazia. Cetoprofeno. Quando eu tomei isso? Será que foi quando o joelho travou? Sei lá. Se não ajudar a diminuir a dor de cabeça, talvez ajude para outra dor da vida. Ou piore. 

O celular estava tocando. Fui procurá-lo na minha bolsa, achei um cartão de visitas de uma reunião que fui na semana passada, achei um brinquedo de kinder ovo que ganhei do meu sobrinho no nosso passeio de sábado, um bloco de post-it meio amassado e um bloquinho de anotações com a minha letra de jornalista indecifrável em algumas partes. O celular parou de tocar. Não achei o celular. Não o achei porque ele estava no bolso da calça. 

Fui pegar os documentos na minha bolsa, achei uma entrada de cinema. Tentei lembrar o filme. Lembrei e era horrível, melhor nem ter lembrado, apesar da boa companhia. Nada dos documentos. Ficaram as lembranças.

Era para ser apenas a minha bolsa e meus documentos. Mas era uma máquina do tempo. Era para caber só carteira, chaves, escova, e outras coisinhas mais. Não era para caber tanta bagunça, lembranças, histórias. Mas cabe.

Fui mexer na minha bolsa para pegar o ticket do estacionamento. Achei a conta do celular que estava atrasada, compromissos adiados, culpa, graça e muita, muita pressa. Não achei tudo aquilo que precisava. Mas não parei de me perguntar, em nenhum momento, quanto tempo perdemos? Quanto tempo ainda vamos perder?

E a conversa nem é sobre adiamentos, sobre deixar tudo para depois. Nem sobre projetos grandiosos. É apenas sobre ondas momentâneas de liberdade. Sobre menos regras e mais pegar a bolsa e ir ao cinema sozinha. Sobre pedir desculpas pelo jantar que a gente não terminou (daquela 2ª via do cartão que eu achei). Sobre ligar e dizer que sente falta. Sobre fazer as malas. Sobre cortar o cabelo curtinho. Sobre ter ideia que a vida é curta. E que o tempo não volta. Sobre frio na barriga. Sobre apenas ser. Sobre o óbvio.

17 de fevereiro de 2016

Direito ao avesso

"No I don't care if I sing off key. I find myself in my melodies. I sing for love, I sing for me. I'll shout it out like a bird set free!"
[Being free...]

Tão acidental quanto um tropeção na calçada. Esses de até ver estrelas. E foi assim mesmo. De repente, rápido, bem dolorido (é mentira que quando você puxa o band-aid de uma vez dói menos).
Sempre ouvi que esses encontros acontecem assim, sem querer. Mentira. Não é como fosse o tropeção... Quem procura, acha. Mas, para mim, funciona assim: a vontade de achar acaba com a possibilidade de encontrar.

Leva tempo. Precisa, primeiro, doer (muito), para até não segurar as lágrimas. Precisa, depois, cicatrizar. Precisar, então, esquecer. E aí, passou. Tempo, bastante tempo. Quando a gente descobre isso, é libertador.

E com essa minha pseudoliberdade recém-adquirida, os tropeções aumentaram. O orgulho diminuiu. E os encontrões pela vida já podem ser recebidos sem segundas intenções, olhar e dizer “senti saudades”. Mas antes que pegue mal, eu me explico.

Sabe quando as pessoas dizem que querem envelhecer juntas? É isso. Entre um esbarrão e outro. O mais incrível é que ele nunca mudou. E isso é difícil de fazer... Sempre lidou com a vida como se fosse fácil. Sempre. Mesmo quando não era. Mesmo quando o tropeção doía mais que o normal... Mesmo quando o band-aid saía antes da hora.

E no último tropeço, naquele de ver muitas estrelas, e dizer “de novo?”, me mandaram prestar mais atenção. Olhar para os lados. Olhar por onde anda. Olhar e ver. Fracasso, na certa.

Mas, como bem disse Caetano Veloso, tenho direito ao avesso, vou botar todos os meus fracassos nas paradas de sucessos. Ah, se vou. Um por um.

Coincidências significativas

"[...] Maybe I should leave To help you see Nothing is better than this And this is everything we need" [Adele, nesta versão aqui ...