"And then dance if you want to dance. Please brother take a chance. You know they're gonna go which way they wanna go... All we know is that we don't know how it's gonna be, please brother let it be."
[Oasis para os dias confusos...]
A metade do pedaço do bolo que ainda estava no meu prato, eu coloquei inteiro na boca. Não era culpa. Era ansiedade. Não era medo, era ansiedade. Ou melhor, acho que era tédio. Meus amigos estavam todos na minha frente conversando sobre viagens sobre homens e mulheres, sobre a chatice do trabalho, mas conversavam sobre coisas que não me chamavam a atenção e não me interessavam nem prendiam minha atenção nem por um segundo, sequer. Conversaram até sobre trânsito... Eu não queria saber do trânsito. Não naquele dia.
Eu tomei uma decisão desde pequena que, se as coisas não estivessem dando certo, eu faria dar. Que eu nunca cairia na monotonia. Eu poderia inventar mil histórias, mas elas dariam resultado. Eu prometi isso pra mim mesma e mesmo que, com o passar do tempo, a tarefa fosse ficando mais difícil, eu nunca deixei de tentar. Naquele dia, com meus amigos ali por perto, todos bebendo e eu não bebo, talvez uma taça de vinho... Mas, naquele dia, nem isso. Eu não tinha comido e porque eu realmente não queria. Monotonia. Eu queria ir embora. Cogitei a possibilidade, dei o primeiro passo em direção ao meu casaco e à minha bolsa. Você abriu a porta. Eu não te via desde o último encontro dolorido e constrangedor.
Eu olhei para a porta. Olhei para você. Olhei para a minha bolsa. Olhei para a porta. Olhei para você. Queria sair à francesa, como quem não tivesse sido vista. Mastigando ainda aquele pedaço de bolo. Aquilo foi como se o meu próprio eu, dentro de mim, estivesse me contando o que estava acontecendo e eu respondendo - por causa da minha necessidade ENORME de contar tudo para mim mesma, pra ver se, pelo menos, na minha cabeça essas coisas fazem sentido. Eu me conto e reconto tudo de novo, detalhadamente, dolorosamente. Agarrei o braço da Carol e disse, é ele. Ele quem? Ele. Qual deles? Ele. Quem? O último. Ele? É. Ele...
Você passa por entre as pessoas, cumprimenta algumas, abraça outras, sorri pra outras, joga seu charme pra outras. Eu gosto que gostem de você. Grande bobagem. Porque você é o cara que, quando foi embora, me deixou sentindo uma dor bem enorme. Mas eu gosto de você. Só que agora penso muito mais antes de rir pra qualquer bobagem.
Eu conto para mim mesma cada peça de roupa sua, conto detalhes, cores e tamanhos. Seus sapatos. Seu relógio novo. E em meio a essa novela que eu roteirizo para mim mesma, percebo que você me percebe. Conto como você franziu a testa e, ao mesmo tempo, arregalou os olhos verdes, e comentou com um amigo. Andou na minha direção. Eu olho para a minha bolsa. Olho para a porta. Me arrependo de ter comido aquele pedaço de bolo e ter demorado para dar o primeiro passo. Você passou por trás de mim. Esperava algum tipo de aprovação. Eu só consegui olhar para a minha bolsa e para a porta. Você esperava que eu me virasse e aceitasse um "oi" cordial. Cansada de olhar para minha bolsa, de olhar para a porta e de me contar cada detalhe seu, eu resolvi chamar teu nome.
Chamei seu nome. Saiu como um grito guardado há uns 5 meses e alguns dias. Chamei seu nome com um sorriso maduro no rosto. Mordendo a língua, segurando as mãos frias umas nas outras, querendo segurar o coração para ele não sair pela minha boca. Foi tão difícil. Você estava querendo aquilo mesmo sem querer. Fizemos um brinde ao nosso reencontro. Eu com meu copo de água. Você com a mesma bebida sem graça de sempre...
Brindamos. Você me olhava fixamente nos olhos. Continuava com a mesma mania de falar bem perto do meu rosto. O garoto inseguro que se via na minha retina. E eu me pergunto: Que insegurança é essa? Mas a pergunta fica só na ideia. Eu não te pergunto nada. Aliás, eu nunca te questionei. Apenas volto a te desejar, mas sorrio como se não me importasse mais com sua presença. Mas você resolve tomar alguma atitude. Resolve falar. Chega mais perto. Diz que meus olhos sempre foram de dúvida e sempre estavam perguntando algo para ele. E você volta para aquela mesma loucura de antes que me fez gostar de você.
Você me disse que eu gostava de ver tudo pelos detalhes, não aceitava o contexto. Ele era só ele, ele dizia. Por que eu queria complicar? Você segurou minha mão. Dizia que eu queria ver através daquilo que eu via, que aquilo que eu via não me bastava, era pouco. Me disse que não suportou isso. Não suportou eu ver além do que era, eu inventar mais do que era, eu complicar mais do que era.
E eu só queria te dizer, ali, com as suas mãos segurando as minhas, que tudo bem. Que eu seria mais simples. Eu complicaria menos. Eu acabaria com as minhas possibilidades e com as minhas invenções. Mas enchi meu peito de coragem e te disse que onde você era simples, eu era a exceção.
Um comentário:
Wow, Mari... que profundo e intenso! se não o melhor, um dos melhores posts que já li por aqui.
Sensacional, lindona...
beijos, Erica Augusto
http://duplotriplomultiplo.blogspot.com
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